O Fracasso da Razão
Antes
da Era dos Alienistas e do surgimento de instituições manicomiais, a loucura
era vista popularmente como uma forma de sabedoria, pois, naquela remota época,
a fé cega na razão ainda não tinha se tornado dominante, como o é hoje, em
todas as esferas da vida. Neste sentido, afastar-se da verdade para manter a
sanidade nada mais é do que uma atitude de bom senso, pois, epistemologicamente
falando, é bem provável que nunca alcancemos a verdade absoluta. Na realidade,
uma pergunta leva à outra; quanto mais respostas obtemos, mais perguntas nos
são apresentadas; é uma busca infinita – e como é fácil se perder em uma busca
infinita! Achar que a Verdade pode ser encontrada é abandonar o Reino da
Dúvida, é abraçar de vez a insensatez e a loucura, no caso, a própria loucura.
E quantos vemos por aí que afirmam, em alto e bom som, que já a encontraram!
Estes profetas de si mesmos, após a sua iluminação, tentam a todo custo
espalhar a sua verdade, querendo que o mundo seja totalmente reconstruído à
imagem e semelhança de seu ideário particular.
Dizem que a verdade é insuportável, que não devemos, para o nosso
próprio bem, nos aprofundarmos em certos assuntos, mas isso só é verdade para
os iniciantes e para aqueles que não conseguem lidar com certos fatos. Para sermos
minimamente felizes – uma felicidade possível, não ideal –, devemos aceitar que
a verdade em seu sentido amplo talvez não seja alcançável; que a nossa razão é
limitada e que ela não consegue abarcar tudo; que não existe nenhum sentido a
priori para a vida; que a vida, por sua vez, é precária e cheia de
contingências; por fim, que é melhor que a vida tenha gosto, prazeres e
sensações gratificantes do que falsas certezas absolutas.
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