Recordações
Num dia
desses, estava eu a recordar o passado, um tanto longínquo, que aos poucos se
desvanece à ação lenta e contínua do tempo. E, aos poucos, fui mergulhando num
mar de doces recordações pueris, alegres peraltices e não poucas imaginações.
Neste revolver das minhas reminiscências senti-me assaz extasiado, imensamente
contente por compreender que nada na vida é em vão vivido, podemos sempre
trazer de volta os doces momentos vividos e, por que não, ao trazê-los de volta
à flor da mente experienciarmos outra vez as alegrias e dores de outrora,
certamente não com o mesmo sabor de novidade e incerteza que existe somente no
instante presente, mas com aquele prazer de analisar e buscar entender qual
eram as forças que nos moviam, quais sentimentos verdadeiramente nos agitavam e
o que de fato acontecia.
Ao
passo que estas recordações vinham à tona em meu consciente, fui percebendo as
alterações da vida, a meninice já um tanto esquecida, o espírito otimista e
brincalhão que para trás ficou, e tal agitação tomou conta de mim de uma forma
tão intensa que acabei deixando cair uma pequena e contrita lágrima. Foi como
estar a contemplar um espelho e ver que as marcas do tempo em muito apagaram em
meu espírito a jovialidade da tenra idade. Quem assim ler estas minhas palavras
com certeza há de pensar que quem as escreve é por certo uma pessoa de muitas
primaveras, mas não, não sou um homem velho, entretanto a aspereza e conflitos
da vida, de certa forma, nos embrutecem o espírito e nos tornam por assim dizer
uma sociedade decrépita.
Ao
passo que penso não ser necessário cair em alguma fonte do rejuvenescimento,
muito menos querer aparentar uma idade ao qual não temos, devemos, pois, buscar
no recôndito de nossa alma a essência da vida, reconstituir em nós a chama da
esperança, a alegria sincera e espontânea da criança que há dentro de cada um
de nós, pois com certeza debaixo do pó e dos escombros do coração humano ainda
existe com certeza os resquícios de uma esplendorosa civilização. É uma
questão, em minha opinião, de valorização do que temos de mais precioso, mas a
cada um cabe a sua interpretação.
Neste
dia, terminada estas minhas reflexões, silenciei-me por fim.
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