O Encontro
O
ambiente fúnebre em que me encontrava trazia à superfície intacta dos meus
pensamentos o afloramento de sensações e de sentimentos há muito esquecidos.
Olhava tudo com uma perspicácia atroz, buscando desvendar atrás de cada rosto
sisudo e triste, atrás de cada pranto e gesto cerimonioso, uma verdade oculta
que redimisse toda a dissimulação humana. As sombras dos candelabros clareavam
e, ao mesmo tempo, obscureciam a minha face. O cheiro de flores murchas
impregnava o ar com um odor nauseante. O silêncio era quase absoluto.
Eu
observava atentamente o meu corpo inerte preso irremediavelmente àquele ataúde
que encerrava tantos sonhos não realizados, tantos amores não vividos e,
sobretudo, tanto tempo desperdiçado. Lutei a minha vida inteira por uma causa
que ao final se me mostrou inútil. Ah, se eu soubesse da irrelevância de toda
ação humana! Mas todos os presentes eram unânimes em admitir a minha alta
significância por causa do meu papel social muito bem desempenhado. As minhas
virtudes, oh, as minhas virtudes - eu me tornara de repente um ser sublime,
honrado e bondoso. Senti-me sufocado por tantas vozes e pensamentos, quis
gritar exasperado, porém não consegui, a nadificação da minha existência seria
o meu eterno aprisionamento.
Havia
ali um espelho embaciado, e me detive diante dele a buscar repostas para as
últimas inquietações de uma consciência que aos poucos se obliterava. Cada
segundo parecia ter a duração de um milênio, e tudo, no entanto, passava tão
apressadamente! Vi através do espelho toda a minha vida desconcertante e
incoerente. Assustado com tal frenesi, eu fechei meus olhos e, aos abri-los, só
encontrei uma escuridão solitária e profunda que me anestesiava os sentidos.
À
escuridão, sucedeu-se uma grande claridade que me ofuscou a visão. Quando
consegui finalmente divisar alguma coisa, foi que me vi aproximando de mim
mesmo.
– Beatriz,
eu...
– Não,
não fale nada... Deixe que o silêncio e o calor dos meus braços te confortem.
Que a absurdidade e a estranheza da existência nos envolvam completamente. Tua
presença já é suficiente.
Unificados
finalmente, caminhamos de mãos dadas sem a necessidade compulsória de chegar a
algum lugar específico. A eternidade nos bastava.
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